Godwhacker
Sobre som, intenção e a tentação de ocupar lugares que não nos pertencem
Este é um processo contínuo.
Esta semana, depois de um solo sobre Sexy MF, de Prince, acabei por ir até aos Steely Dan — e, talvez não por acaso, até ao último álbum. Andava há muito tempo à espera que Everything Must Go aparecesse finalmente em vinil; quando chegou, percebi que não era apenas mais um disco, mas mais uma etapa desse percurso silencioso que se faz entre ouvir, tocar e voltar a ouvir.
Ouvir este disco em vinil acabou por ser menos imediato do que eu imaginava. Não por falta de vontade, mas por um detalhe técnico quase absurdo: o meu gira-discos é um Technics com braço tangencial e sensores ópticos responsáveis pelos automatismos — um aparelho que me foi oferecido pelo meu padrinho, João Nuno, e que uso há anos com a confiança tranquila de quem já conhece os seus gestos. O problema é que esta edição de Everything Must Go é transparente. É um disco giro, com um aspecto muito particular — uma prensagem de 180 gramas que, ao rodar, cria um efeito curioso — e completamente ilegível para os sensores.
Até que tive uma ideia simples: tapei os sensores com fita-cola, por baixo da borracha do prato. Perdi os automatismos, mas ganhei o som. Desde então, funciona tudo na perfeição. Às vezes, para ouvir realmente alguma coisa, é preciso aceitar que nem tudo seja automático — uma lição técnica que costuma ter aplicações fora do domínio da alta-fidelidade.
Talvez isso ajude a explicar o som deste disco. Ao contrário da imagem quase lendária dos Steely Dan como laboratório obsessivo de overdubs infinitos, Everything Must Go foi gravado de forma mais directa, com músicos a tocar juntos, menos camadas, mais respiração. Gravado em fita analógica, soa menos como um objecto minuciosamente construído e mais como um organismo vivo. Não é um recuo estético. É maturidade. Como se, depois de uma vida inteira a controlar tudo, eles tivessem finalmente decidido confiar.
No meio disto tudo, houve também um prazer quase infantil no processo. Foi uma semana particularmente feliz, porque recebi finalmente em vinil os dois últimos discos dos Steely Dan — Two Against Nature e Everything Must Go. Eram discos que me faltavam neste formato. Já os tinha em CD, claro, porque quando saíram já vivíamos plenamente na era digital. Recebê-los agora, tantos anos depois, teve o sabor de completar um ciclo — como quem reencontra peças antigas de uma colecção e se lembra exactamente porque é que aquilo importava.
Depois vem a música. E aí já não há surpresa, apenas confirmação. Os Steely Dan acompanham-me desde novo e continuo a não me cansar deles. Estes discos são extraordinariamente bem construídos. Em termos instrumentais, de arranjos e de som, está tudo lá: groove, blues, jazz, funk, pop, R&B — tudo misturado com uma naturalidade que nunca soa a demonstração. Tocar por cima disto é uma delícia. Há espaço, há resposta, há chão. As guitarras conversam com os arranjos, a produção não sufoca — convida.
É um prazer, sim, mas é também um desafio. Estes solos são verdadeiras aulas. Obrigam-nos a ouvir melhor, a reparar nos detalhes, na costura fina, na forma como os pormenores se encaixam sem nunca chamar a atenção para si próprios. Há aqui uma exigência silenciosa que não perdoa distracções.
Há também o desafio do som. Para chegar àquele lugar — não só às notas, mas ao peso certo, à dinâmica certa, ao ponto exacto onde a guitarra deve respirar — é preciso tempo. Muito. Para cada quinze ou vinte segundos de vídeo, divididos entre guitarra rítmica e solo, passo dias a experimentar guitarras, pré-amps, combinações. Há um grau de exigência neste tipo de trabalho que não permite avançar de forma descuidada. Claro que nunca chego ao som deles — ninguém chega em casa aos meios, às salas e às condições que bandas destas tiveram. O objectivo é outro: sentir que estou a respeitar a música e que aquilo que faço é algo de que me posso orgulhar.
Experimentei também uma Stratocaster, mas acabei por gravar o solo com uma Telecaster. O som do Walter Becker vive muito nesse médio-grave cheio de dinâmica, naquele limite instável entre o limpo e o crunch. A Strat soava-me sempre demasiado aguda; foi a Tele, no pickup do braço, que melhor se encaixou nessa respiração.
Godwhacker é uma canção com um tempo upbeat e uma batida seca, precisa. Instrumentalmente, tudo é contido. O solo abre outro espaço: muito blues, muito jazz, uma linguagem que oscila entre a pentatónica e o modo dórico, dita mais pela intenção do que pela escala. O fraseado do Walter Becker vive dessas pequenas deslocações — a palhetada seca, o staccato, as notas que parecem quase tropeçar antes de cair no sítio certo. Não há pressa, não há exibicionismo. Há expressão.
O Walter Becker nunca foi um guitarrista particularmente falado. Nunca fez parte do panteão óbvio, nunca foi um nome repetido nas listas ou nos consensos fáceis. Talvez por isso mesmo sempre me tenha interessado tanto. Começou como baixista, e isso sente-se na forma como pensa a guitarra: sempre em função do groove, do tempo, do lugar certo. Para mim, Becker foi um guitarrista essencial. Não porque tenha os solos mais conhecidos ou mais celebrados, mas porque tem uma linguagem própria, um som reconhecível, uma maneira de dizer muito sem precisar de levantar a voz. E não é por acaso que o Donald Fagen nunca existiu artisticamente sem ele. O Steely Dan nasce dessa tensão e desse equilíbrio.
Há uma coisa que sempre me foi impossível ignorar quando ouço um guitarrista: perceber se os blues estão lá ou não. Distingue-se logo. Não é uma questão de escala, nem de vocabulário aprendido — é uma questão de tempo. Quem tem os blues e o jazz na raiz toca de outra maneira: o groove é outro, o fraseado respira de outra forma, a relação com o ataque e com o silêncio é diferente. Quem não tem isso pode tocar muito, mas toca mais direito, mais quadrado.
Quando falo de uma linguagem mais “branca” ou mais “negra”, não falo de raça — falo de herança musical. Digo-o com respeito e com gratidão. A música popular que mais me formou vem, em grande parte, da tradição afro-americana, e tudo o que sei sobre tempo, groove, intenção e emoção devo a essa riqueza imensa. Sou branco, claro, mas musicalmente sempre me senti um pouco negro — na relação com o ritmo, com o atraso microscópico do tempo, com uma expressividade que não se aprende em livros. Não é uma questão de identidade. É uma questão de escuta.
E é aí que o Walter Becker me fala. No ritmo, na dinâmica, no ataque às cordas, no som que tira da guitarra e do amplificador. Aquilo não é um acidente técnico; é uma coisa intrínseca, emocional, difícil de explicar por escrito, mas impossível de não reconhecer quando se ouve.
A letra acompanha essa contenção. Godwhacker não é uma canção sobre religião; é sobre outra coisa bem mais desconfortável: a tentação de ocupar um lugar que não nos pertence. A figura que atravessa a canção é a de alguém convencido de que sabe melhor, de que vê mais longe, de que tem autoridade moral para decidir. Não há gritos, não há julgamento explícito — apenas observação. E talvez seja isso que a torna inquietante: a violência aqui não é barulhenta, é segura de si.
Não deixa de ser curioso que esta canção surja precisamente neste disco. Everything Must Go nunca foi anunciado como despedida, mas acabou por sê-lo. Becker toca aqui como alguém que já não precisa de provar nada. O solo não quer ser memorável; quer ser certo. E essa escolha diz mais do que qualquer sublinhado.
No fundo, sinto que é uma canção profundamente bem resolvida. Música e letra encaixam com precisão. Não é uma canção comercial — nunca quis ser — mas é uma canção que me toca. E isso basta. Os Steely Dan sempre foram uma banda especial. Nunca foram uma banda de estádios, mas foram sempre uma banda respeitadíssima no mundo musical, sobretudo pelos seus pares. Tornaram-se uma referência quase normativa para quem leva a música a sério: músicos, compositores, produtores, gente que sabe que o detalhe não é um luxo, é uma responsabilidade.
Talvez seja por isso que continuo a voltar aqui.
Porque esta música não pede adesão imediata.
Pede atenção.
E, de vez em quando, fita-cola nos sensores.


